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Após 39 anos, crânio de padre assassinado é enterrado e encerra capítulo de crime brutal em MT

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A calota craniana do padre jesuíta Vicente Cañas, conhecido como Kiwxi, foi sepultada junto ao restante de seu corpo após 39 anos de sua morte, em cerimônia realizada entre os dias 6 e 9 de abril de 2026, na Terra Indígena na região de Juína. O missionário foi assassinado em 1987 enquanto atuava na defesa do território do povo indígena Enawenê Nawê.

A devolução do crânio, que permanecia como prova em processo judicial, foi autorizada pela Justiça Federal, permitindo a realização do ritual completo de sepultamento conforme os costumes indígenas. A cerimônia reuniu representantes do Conselho Indigenista Missionário, da Operação Amazônia Nativa, da Companhia de Jesus, da Diocese de Juína, do Instituto Federal de Mato Grosso e familiares espanhóis, além de membros da etnia Enawenê Nawê.

Vicente Cañas viveu por mais de uma década entre os indígenas e foi o único missionário branco a ser batizado pelo povo Myky, que lhe deu o nome Kiwxi, que significa “aquele que se doa por inteiro”. Para os Enawenê Nawê, ele é considerado parte do mundo espiritual e sua memória permanece viva na cultura da comunidade.

O religioso foi visto pela última vez em 5 de abril de 1987, quando fez contato por rádio informando que retornaria à aldeia no dia seguinte. Seu corpo foi encontrado 40 dias depois, mumificado, próximo ao barraco onde vivia, às margens do rio Juruena.

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As circunstâncias da morte foram marcadas por extrema violência. De acordo com relatos da época, o padre foi atacado com golpes na cabeça e no corpo, além de ter sofrido mutilações. Apesar disso, o corpo permaneceu preservado, o que reforçou a suspeita de homicídio.

A investigação inicial chegou a apontar morte natural, tese posteriormente contestada. Anos depois, o caso foi reaberto, e o então delegado Ronaldo Antônio Osmar foi acusado de envolvimento no crime, sob a suspeita de ter articulado o assassinato a mando de interesses ligados à exploração da terra indígena.

Após um longo processo judicial, ele foi condenado em 2018 a 14 anos de prisão. Atualmente, cumpre pena em regime domiciliar no estado de Goiás.

Para os indígenas, o sepultamento completo dos restos mortais representa o encerramento de um ciclo espiritual. Segundo a tradição, enquanto o corpo não é integralmente sepultado, o espírito não encontra descanso.

O ato simbólico marca não apenas o fim de um processo físico, mas também o reconhecimento histórico de um dos principais defensores dos povos indígenas no Brasil.

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