Mato Grosso, 9 de dezembro de 2019
   

Venezuelanos tomam as ruas de Cuiabá pedindo emprego desesperadamente leia

Reprodução

venezuelanos

Um dos venezuelanos mostra cartaz pedindo emprego de serviços gerais e o outro solicita uma ajuda para se alimentar, já que muitos passam fome

Sob o sol das 10h, as primas venezuelanas Kateye de Jesus e Yolisebel Josefina pedem trabalho a quem passa em frente ao 44º Batalhão do Exército, no bairro Duque de Caxias, em Cuiabá. Enquanto a primeira descansa sentada, a segunda estende um cartaz em que pede uma oportunidade de diarista e agradece pela atenção. “Não queremos dinheiro. Apenas trabalho”, afirmam. As duas saíram de um país arrasado pela crise econômica e política.

pedido de emprego venezuelana

Venezuelana, mãe de 3 filhos,  expõe cartaz nas ruas

Esta é uma cena que está ficando comum pelas ruas e avenidas de Cuiabá. Venezuelanos estendem cartazes de papelão, com número de celular, com apelos. Muitos deles levam até crianças aos pontos sob sol forte. Nos poucos dias de frio, a situação não muda.

Segundo dados da Polícia Federal, mais de 4,1 mil carteiras de trabalho foram emitidas para venezuelanos em abril deste ano. Mas, no mesmo período, somente cerca de 1,4 mil foram admitidos. O desemprego é maior entre as venezuelanas – apenas 364 foram contratadas e 500 demitidas.

Kateye e Yolisebel estão há pouco mais de um mês no Brasil, sozinhas e sem parentes ou amigos conhecidos a quem recorrer. Elas entraram por Roraima e, de Manaus a Cuiabá, vieram de carona. Em Cuiabá, estão há aproximadamente três semanas e, no sinaleiro da região central, pedem trabalho há 2 semanas.

Na Venezuela, nenhuma delas trabalhava. Apenas viviam do lar e cuidavam dos filhos. Kateye é mãe de três meninas e Yolisebel de um casal. Mas, após a queda de mais 60 dólares no preço do barril do petróleo e sua desvalorização no mercado internacional, o governo deixou de comprar itens básicos e a inflação passou a corroer a moeda. O Fundo Monetário Internacional (FMI) estima que a taxa bata 10 mil pontos percentuais no final deste ano.

Mais falante, Kateye afirma que a comida está muito cara no país e faltam remédios, água, gasolina, luz e entre outros itens básicos. “Venezuela está muito mal”. Elas contam que prefeririam não sair do país que amam. Mas, se não saíssem, os meninos não teriam o que comer, já que lá só se faz uma refeição por dia.

Em busca de oportunidade, as primas vieram ao Brasil. “Por que aqui tem de tudo e lá não tem nada”, desabafa Kateye.

Os filhos delas ficaram e, ao serem perguntadas sobre a saudade, soltaram um riso nervoso e, em seguida, lamentaram: “Não é fácil, não é fácil…”

Kateye e Yolisebel ainda não têm documentos brasileiros, como CPF ou carteira de trabalho, tampouco a residência, que garante a permanência legal no país por até dois anos. Seu único documento é a permissão para entrar pela fronteira brasileira e ficar no país. Em Cuiabá, elas estão na casa de outro venezuelano, que está a mais tempo no Brasil, e abriga seus conterrâneos.

Estatística

Atualmente, são 118 migrantes na Casa do Migrante. “Está superlotada!”, exclama Eliana Vitaliano, coordenadora. Ela aponta que trabalham acima da capacidade que é de 100 pessoas. A maioria é de venezuelanos, mas há também haitianos, cubanos, colombianos e até um africano. “Alguns pretendem ficar em Cuiabá. Outros devem seguir para outros estados”, disse.

De dezembro de 2018 até junho de 2019, já passaram aproximadamente 800 venezuelanos pela Casa. O número de imigrantes da Venezuela pode, no entanto, ser muito maior, já que muitos sequer passam pela pastoral. Segundo Eliana, alguns já têm parentes na Capital ou são acolhidos em casas por seus conterrâneos, como é o caso de Kateye e Yolisebel.

Muitos deles também chegam somente com a permissão de entrada e não possuem documentos brasileiros. A Casa do Migrante fornece hospedagem e alimentação. Também orienta e regulariza a situação dos venezuelanos no país, enquanto aguardam uma oportunidade de emprego.

Eliana Vitaliano

Eliana Vitaliano, coordenadora da Pastoral do Migrante, em meio a venezuelanos, haitianos e outros acolhidos em momento de grande incerteza e saudade

Marilete Girardi

Auditora do trabalho, Marilete Girardi

Documentação

Para a auditora do trabalho Marilete Girardi, a documentação não chega a ser o empecilho para os venezuelanos. “Não é esse o grande problema. Tem muitos migrantes chegando e a falta de vagas [de trabalho] é muito grande”, disse em referência a baixa atividade econômica pelo qual passa o país, que tem atualmente 13 milhões de desempregados, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Segundo Marilete, quando surge alguma oferta de trabalho, que são em sua maioria de serviços gerais, a preferência é pelo migrante que está a mais tempo na Casa. Muitos conseguem também empregos por conta própria, sem a intermediação da auditora, ou as chamadas diárias, que são trabalhos pagos pelo serviço e não pelo mês.

A auditora ressalta que não encaminha migrantes para trabalhos informais, já que se trata de uma relação sem nenhuma garantia trabalhista. A exceção seria os serviços domésticos. “É a única que a legislação permite”, disse. Nesses casos, os venezuelanos agem por conta própria e pelo desespero, pois precisam do dinheiro.

Sobre a situação dos venezuelanos com cartazes na rua e até mesmo com crianças, Marilete aponta que não tem como interferir nessa situação. Uma vez que, ao ter permissão para ficar no Brasil, eles são amparados pelo direito constitucional de ir e vir para onde quiserem. “Ficamos preocupados, mas não temos como tomar nenhuma providência. Não é função da Pastoral”, disse a auditora.

Eliana também aponta que não são os venezuelanos da pastoral que ficam na rua, mas que são acolhidos por parentes. Mas a coordenadora tem a mesma preocupação e comenta que, enquanto aguardam a regularização da documentação, é a opção que sobra aos venezuelanos de mandar recurso para parentes que ficaram no país. “Quem ficou [na Venezuela] está com fome e doente. [O trabalho informal] é um jeito de conseguir recurso”, disse.

Outro lado

Procurada pelo , a assessoria de imprensa da secretária municipal de Assistência Social e Desenvolvimento Humano (Smasdh), da Prefeitura de Cuiabá, informa que a Pastoral dos Migrantes presta o atendimento aos venezuelanos e comunica a pasta se houver necessidade. Já sobre os imigrantes com as crianças em vias públicas, destaca que a responsabilidade é dos Conselhos Tutelares.

“A assistência social faz o serviço de abordagem aos moradores em situação de rua, onde essas pessoas são abordadas e convidadas a irem em algumas das unidades de referência no Município, no caso os Cras, Centros de Referência que oferecem todo o suporte, como o encaminhamento e inclusão nos programas sociais”, informa a nota da Smasdh.

Já a secretaria estadual de Assistência Social e Cidadania (Setasc) informou que a atenção aos imigrantes é obrigação do município e da União. A pasta acompanha e presta assistência as prefeituras para melhor atendê-los em seus programas de políticas públicas. “Os estados não têm como abraçar essa causa até por conta da legislação que não é de nossa responsabilidade, mas nós não podemos ficar assistindo essa situação sem fazer nada”, diz a secretaria Rosamaria Ferreira de Carvalho.

“O governo nunca vai se furtar de ter um olhar fraterno e de preocupação com essa questão. Não é um problema do Mato Grosso, mas de muitos estados brasileiros. Posso dizer sem medo de errar”, completa secretária. Ela diz estar aguardando uma posição mais clara do Governo Federal sobre a questão dos venezuelanos.

A Smasdh também informou que tem um telefone disponível para solicitar a visita de assistentes sociais. É o (65) 9 9238-7552, que atende até as 22h todos os dias. Vale para denúncias ou apontamentos, que norteiam as equipes a realizarem a abordagem, com orientação correta de atendimentos à população em situação de rua.

O Governo Federal também foi procurado, mas não deu retorno até a publicação desta reportagem.

Ajuda

Quem tiver propostas de diárias ou trabalho para Kateye e Yolisebel podem ligar no telefone (65) 9 9315-5140. O número é de uma parente das duas e foi identificada como Herdelí, que está há alguns em Cuiabá, e abrigou-as.

A auditora Marilete Girardi também disse que os empresários interessados em oferecer trabalho para os venezuelanos podem procurar a Casa do Migrante para negociar uma vaga para eles.

A secretária Rosamaria destaca também que os venezuelanos podem procurar os postos do Sine de Cuiabá e demais municípios.

Fonte: Rd News

AtualMT